quinta-feira, 16 de maio de 2013

1950: Da euforia ao Maracanazo

Estádio do Maracanã em 1950
 Hoje, te convido para uma viagem no tempo. Mais precisamente para o ano de 1950,quando o mundo enfrentava um recente pós segunda guerra mundial e via uma Europa que estava em plena reconstrução e com uma economia precária. A Guerra, como não poderia ser diferente , trouxe tensão e impediu que as Copas do Mundo de futebol de 1942 e 1946 fossem realizadas. Não havia a menor condição de nações se reunirem para se confraternizar em um importante torneio de futebol quando os nazistas  queriam o poder, os russos queriam provar a força do comunismo os japoneses se mostravam para o mundo e os Estados Unidos assistiam tudo até o momento  que eles decidiram mostrar todo o seu poderio bélico. Diante desse cenário de bombardeios e batalha de poderes, realmente as Copas tinham ficado em um distante segundo plano. Felizmente, a guerra acabou e , a FIFA , pode voltar a pensar nas Copas do Mundo. Em 1946, com o caos ainda sendo digerido, não foi viável realizá-la. Só em 1950 a copa voltou para o calendário do futebol. A escolha do Brasil como sede foi resultado de fatores como o fato dos europeus não disporem de recursos financeiros suficientes. Dessa forma , pareceu inevitável não escolher um país sul-americano como  sede.


Argentina e Brasil se mostraram os dois maiores interessados nessa possibilidade. Os argentinos já compreendiam que já tinham alcançado alguns feitos importantes no futebol. Entre eles.  o de ter sido vice- campeã da primeira Copa do Mundo em 1930, no Uruguai. O Brasil, entrava como sendo uma novidade e um país que queria mostrar os esforços para tornar o seu futebol mais profissional e consistente. Assim como os argentinos, os brasileiros já podiam dizer que tinham uma breve mas até boa história no futebol. Em 1938, a seleção que mais mais tarde ficaria conhecida como uma potência, ficou com um honroso terceiro lugar na Copa do Mundo, naquela época realizada na França. No  desenrolar dessa história, melhor para o Brasil ,que foi escolhido para ser o país sede. Daí em dante, era preciso se preparar e planejar  uma competição que, das quatro edições. três aconteceram na Europa. Não seria fácil. O Brasil era um ponto de interrogação. Não se tinha uma visibilidade mundial e ainda havia dificuldades para  solidificar uma integração regional.  Esses e tantos outros fatores levantavam desconfiança e questionamentos de que essa teria sido mesmo a escolha certa.



Contra toda e qualquer desconfiança, o Brasil sabia que tinha que mostrar toda a imponência que nunca mostrou. Uma Copa do Mundo seria muito mais que um torneio do futebol, era, na verdade, a chance de  expor sua imagem para além de um pedaço de terra na América do sul. Claro, também tinha uma seleção de futebol  para ser construída  Diferente do que vemos atualmente, nessa época ainda não havia um torneio que integrasse times de várias partes do Brasil. Haviam apenas os campeonatos estaduais e uma boa dose de rivalidade entre cariocas e paulistas. Quando se falava em uma convocação da seleção, basicamente, só eram lembrados os jogadores  oriundos desses estados. Um queria mostrar que era superior ao outro, dizendo que tinham os melhores times e atletas. Outra característica comum dessa época,  eram os amistosos entre as seleções estaduais. Foi uma partida como essa que inaugurou o Maracanã. A vitória foi dos paulistas que venceram os cariocas por 2 a 1. Esse e tantos outros confrontos, foram impulsionaram uma rivalidade  que, de alguma maneira, travavam a vontade de ver o Brasil jogando como uma seleção coesa. Para se ter uma ideia, nos anos 40, jogadores paulistas e cariocas, acabavam protagonizando discussões. Tudo isso teria que ser superado ou, pelo menos  minimizado, pelo  proposito de não querer passar despercebido em uma copa que ocorreria em  casa. O Brasil queria mostrar um futebol diferente e que fosse capaz de surpreender . Flávio Costa, técnico, já conhecido pelo trabalho realizado em times do Rio de Janeiro, foi o escolhido para comandar o selecionado.


A copa de 1950, além de uma seleção  que tinha a missão de encantar, também precisava de um palco que ficasse marcado pela sua importância não só para o Brasil , mas também para o resto do Mundo: O Maracanã surgiu como uma fortaleza de concreto pronta para abrigar o orgulho de um povo que ansiava por um motivo para se sentir visto. Sim, este mítico estádio chegaria para impressionar e ser o simbolo da ascendência de uma nação. A partir de sua construção começou a nutrição de sonhos desde a abertura de um mundo pronto para ouvir o Brasil dizer quem ele é e ,  definitivamente, afirmar-se.


O Maraca  e a Copa De Mário


Se o futebol brasileiro ganhou respeito ao longo dos anos, deve muito ao jornalista  Mário Filho. É bem verdade, ele não usava chuteiras nem entrava em campo para fazer dribles ou gols. A sua importância deu-se no uso das palavras e da luta para incentivar a concepção de   torneios  mais organizados. Ele foi um dos maiores entusiastas da profissionalização do hoje esporte número 1 do país. Fato que se concretizou em 1935.  Foi a partir dai que as coisas passaram a ser mais planejadas e organizadas.  Com os jogadores recebendo para fazer o que gostavam, os resultados não tardaram a aparecer. A terceira colocação na Copa Do Mundo de 1938, na França, foi apenas o começo do entendimento de que, nos gramados, o Brasil poderia ser vitorioso. Sai o amadorismo   para ir em direção a uma mudança de rumos.


Os esforços de Mário não pararam na profissionalização. Ele também mudou a forma de como a imprensa tratava o futebol. Antes, os jornais  reservavam um pequeno espaço para os resultados dos jogos. Uma realidade muito diferente das grandes manchetes e da imprensa polarizada pelos cronistas , que passaram a dar um tom literário à narrativa do jornalismo esportivo, principalmente, o futebol. Essa eclosão na imprensa esportiva começou, de fato começou quando Mário, ao tomar a iniciativa de entrevistar jogadores, começava a   trazer uma condução  mais dinâmica e completa. O crescimento e formação de um público leitor se tornava evidente. Sendo assim, já, em 1931, fundou um jornal que abrangia  não somente o futebol, mas também outros esportes. As crônicas se tornaram uma marca registrada da narrativa dos jogos. Mais que uma simples objetividade, elas  inauguraram o uso de uma linguagem literária e prazerosa para os leitores que estavam passando a enxergar o futebol de uma forma mais atraente. 


Depois da definição do Brasil como sede da Copa do Mundo de 1950, Mário dedicou amplo espaço do Jornal dos Sports, em pró da construção do Estádio municipal do Rio de Janeiro.Nesse período,ele não poupou o entusiamo em seus crônicas que exaltavam a irreverência e talento do futebol nacional e a força de um povo. O Maracanã foi ganhando, através das palavras de Mário Filho, uma materialização e orgulho  que, cada vez mais, tomava conta das pessoas. As palavras, sínteses da paixão e ufanismo,   ajudaram a reforçar uma confiança e certeza de um triunfo que abraçaram o Brasil em torno da causa de ver sua seleção brilhar em um palco inflamado pelo amor à pátria.


Quando a Copa de 50 acabou e o sonho do primeiro título brasileiro também, , assim como tantos outros sentiram a tristeza pela perda de algo que parecia tão garantido. O 2 a 1 do Uruguai sob o Brasil, fizeram com que o Jornalista se trancasse em seu quarto e chorasse como uma criança. O futuro reservaria muitas glórias para o nosso futebol, mas ele e os  outros brasileiros que viveram intensamente  aquela copa, sentiram uma frustração e perplexidade que eram difíceis de  expressar. Mário pode não ter tido. É bem verdade que a confiança de Mário não se traduziu em um título ardosamente aguardado, mas a sua  contribuição para o futebol profissional, aliado com o compromisso de fazer uma imprensa que falasse sobre contratações até as cronicas que detalhavam  cada Score, Corner e Match , fizeram dele o jornalista que começou a dar ao futebol brasileiro um  espaço de discussões  e a visibilidade para que esse esporte começasse a atingir patamares mais elevados.



Na Luta por uma homenagem justa e reconhecimento merecido, seu irmão, Nelson Rodrigues,  empenhou-se para que o Maracanã se chamasse JORNALISTA MÁRIO FILHO, um eterno apaixonado pela sua nação, que  jamais parou de pensar em uma  forma de como, o futebol, pudesse orgulhar esse país.



Maracanazo


Ganhar é o objetivo principal dos times que entram em campo para disputar um jogo de futebol. A seleção Brasileira de 50 não era diferente, mas, uma grande onda de otimismo fizeram com que o simples ato de ganhar se tornasse pouco. Era preciso ganhar, claro, mas o espetáculo era uma exigência  que os torcedores não abriam mão.  Naquela época, o Brasil ainda não era tão visado pelo resto do mundo. Nada melhor que um futebol cheio de beleza, para de certa forma, trazer um pouco mais de  respeito. Por que Jogar fazendo simples , quando a seleção poderia jogar para humilhar e massacrar os adversários que cruzassem o seu caminho. Tudo estava perfeito. O Maracanã era o palco e uma plateia estava sempre  insaciável por jogadas fantásticas. Além de partidas , era preciso ver o show.



Conforme a copa ia passando e o Brasil afirmava o seu sucesso, muitos queriam aproveitar- se dessa valiosa plataforma de promoção. Percebendo isso, os políticos logo perceberam uma oportunidade. Era comum vê- los em fotografias ao lado dos jogadores da seleção . Eles do mais costumavam fazer discursos em pró do inédito título mundial. Ninguém pensava em perder, a certeza era grande demais para ceder espaço a uma ideia que fosse de ordem negativa. Chegado o momento decisivo, as coisas não poderiam começar de uma forma mais animadora e arrasadora, exatamente da forma como o povo gostava de ver.


No quadrangular final - composto por Brasil, Suécia, Espanha e Uruguai- os Brasileiros aplicaram duas goleadas: 7 x 1 contra os suecos e 6 a 1 nos espanhóis  Em dois jogos , o Brasil somou seis pontos e precisava de apenas um empate contra o Uruguai para ser campeão do mundo de . Desses dois placares devastadores, a vitória diante da Espanha foi  a que causou mais euforia.  Ela foi a peça que faltava para que os brasileiros pudessem acreditar que asseguraram o título antes mesmo de enfrentar o Uruguai. Todos tinham consciência de que podiam jogar pelo empate, mas essa possibilidade era praticamente ignorada, pois , uma equipe que fez jogos, então magistrais, não podia jogar em função de um resultado.  O título tinha que vir acompanhado de uma vitória que deixasse os uruguaios desnorteados e o povo brasileiro embevecido com mais uma exibição maravilhosa. 



E quem era esse Uruguai que iria enfrentar os anfitriões da Copa de 1950?  Sabia-se que eles não tinham  mais o mesmo brilho que dera  dois títulos olímpicos - em 1924 e 1928- e a primeira Copa do mundo, que também foi país sede, em 1930. A seleção uruguaia  de 1950, tinha o futebol muito mais baseado na raça e truculência do que na técnica. Mas mal sabia, a confiante torcida brasileira, que a garra e virilidade de um capitão chamado Obdulio Varela e um tal de Gigia, seriam personagens marcantes daquela tarde no Maracanã.  OS quase 200 mil torcedores, que lotaram absurdamente as arquibancadas, mal sabiam o choque  e decepção que os esperavam.


Domingos Da Guia era um zagueiro de habilidade e que sabia sair jogando como poucos. Ele vinha fazendo uma excelente coa, até que a enigmática partida contra o Uruguai, guardou um lance que o marcaria. Obdulio Varela ( El gran capitan),  também zagueiro, cruzou o seu caminho Não tinha técnica apurada, mas jogava  usando sua força. No auge de sua agressividade, Obdulio esbofeteou o rosto de Domingos que, por sua vez, não revidou. O brasileiro preferiu não entrar na provocação do uruguaio. Se o resultado fosse favorável ao Brasil sua atitude, seria elogiada. Mas,  infelizmente não foi assim, e ele ganhou status de covarde. De zagueiro com atuações elogiáveis, se tornou alvo de duras críticas.. 


No jogo,o Brasil começou na frente. Tudo estava dando certo. Só que, as expectativas e festa do primeiro título mundial do Brasil, começaram a desmoronar quando Giggia empatou. O mesmo Giggia eternizou o seu nome na história do futebol, quando marcou o gol que selou a vitória. Diferente da vibração que vemos em qualquer estádio do mundo, tal cena não repetiu no Maracanã. Ao invés disso, os gritos de alegria deram lugar a um silêncio pleno. Ninguém tinha mais voz nem reação. Todos congelaram diante da inacreditável vitória uruguaia. O jogo acabou e um silêncio incrível se espalhou pelo por todo a extensão do Maracanã. Foi assim que os brasileiros, incrédulos  viram Obdulio receber a taça Julles Rimet  e a festa dos bicampeões do mundo. 


Mesmo após cinco títulos mundias, o vice-campeonato de 1950 segue como uma parte triste , mas, ao mesmo tempo, histórica do futebol brasileiro. O tempo se encarregou de mostrar que o "Maracanazo"- denominação dada para a vitória dos uruguaios sobre os brasileiros,- desde àquela tarde de 1950, digna de um Maracanã lotado, que foi da euforia à uma gigantesca frustração em 90 minutos, se eternizou para o futebol e o esporte em geral.. 










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